05/07/2007 19:39
Eu não brinco de boneca

Estar de férias quando todos estão trabalhando é algo um tanto estranho. Parece que nunca há quem possa aceitar um convite seu.
– Que tal um cineminha?
– Xi, tenho trabalho pra concluir.
– E aquele almoço que tanto temos aguardado?
– Ah, tenho apenas uma horinha livre. Vamos deixar pra outro dia.
Tudo bem. Afinal de contas, como disse um amigo: “Lu, alguém tem que trabalhar pra você curtir as férias”. 8-))

Assim, acabei me conformando. Aproveitei os dias para ampliar meus dons de observadora e cheguei à conclusão de que muitas coisas seguem iguais. Sim, até que a ordem mundial não está tão inversa quanto se pensa.

* * *

Domingo desci para caminhar um pouco. Logo saindo pelo portão, vi dois conhecidos desenrolando linha para soltar pipa. Mais adiante, outro colega, lá pela casa dos trinta e uns, não tirava os olhos do céu. Ao lado de mais três meninos, todos com menos de onze anos, falava sem parar sobre as pipas que empinavam.

Foi aí que invejei a sorte de os homens poderem seguir com suas “brincadeiras de menino” mesmo depois que crescem. Tenho tios cinqüentões que jogam bola com sobrinhos e filhos pequenos, vizinhos que disputam pião com a molecada do prédio e amigos que quase brigam pela vez de jogar videogame.

É uma pena não poder fazer algo parecido. Imagina se resolvo descer e brincar de boneca com as menininhas que moram aqui? No mínimo, no mínimo... assim por baixo... serei a nova doida do pedaço. E não, não será “doida” no sentido de ser legal. Não mesmo!

É preciso crescer. Essa é uma certeza nem sempre indolor. Porém, apesar dos papéis que desempenham, sejam eles de pai, marido, profissional, o homem adulto sempre continua de mãos dadas com o menino que foi. Mesmo aqueles que não vão à rua soltar pipa ou jogar futebol. Sempre têm os que só curtem fazer piadinhas. Pois é, exatamente como aquele vizinho, sobrinho ou priminho engraçadinho que você tem.

* * *

Eu não brinco mais de boneca. Nem minha irmã ou minhas amigas. Nem as meninas de hoje brincam... algumas já têm bebê de verdade para cuidar.

Quem dera elas soubessem valorizar isso. Acho que não sabem, como eu não sabia, que não há como ser menina lá no futuro.


Luciene Alves | comentários( 14 )


27/04/2007 00:20
Conjeturas

Talvez o seu amor não soubesse exatamente o quanto você carregava de ansiedade. Talvez ele não soubesse sequer o que você seria capaz de fazer por ele.

É possível que seus sentimentos nem fossem tão grandes assim e seu amor os achasse supremos. Como também é possível que fossem imensos como o mar e ele os enxergasse como gotas de chuva fina.

Mas são conjeturas inerentes à alma feminina, que muitas vezes, apesar de já não ser tão menina, carrega no peito as dores de um amor que não tem mais jeito. É sempre a mesma coisa: promete sorrir em cada despedida, olhar nos olhos e dizer, firme, adeus.

Porém, o mundo acaba. A chuva não pára.

Não é possível saber se foi amor o que se viveu, nem procurar nos guardados a eternidade que se prometeu. Também não é possível buscar razões para uma canção que não será mais tocada, nem tentar erguer a estrutura de um bem que desaba.

Já não são mais meras suposições de como seria... É o reconhecimento do egoísmo, de pensar somente no que se espera de um amor, do seu amor, sem perguntar-se, sequer uma vez, o que ele mais precisava naquele momento.


Luciene Alves | comentários( 4 )


21/02/2007 21:08
Pressa cotidiana

Andar pelo Centro da cidade, quando se tem a intenção de observar, é perturbador. Por volta de meio-dia e meia, a impressão é a de que toda a cidade caminha por ali. Em frente ao edifício Avenida Central, por exemplo, os ambulantes, com vários softwares “genéricos” pendurados em grades, aos gritos, oferecem seus produtos aos que passam apressados em busca de um lugar para almoçar. Próximas ao meio-fio, inúmeras pessoas ansiosas esticam os pescoços tentando avistar o ônibus. Na mesma calçada, mais adiante, um imenso grupo, embolado e impaciente, aguarda o sinal fechar.

Tudo é tão próximo que é inevitável andar alguns metros sem esbarrar ou ter que desviar. Parece que até mesmo os prédios se sentem incomodados com tanta proximidade, pois para alguns não existe vista ou calor do sol.

Nas ruas, a confusão não é menor. Carros particulares e táxis trafegam apertando com gosto a buzina, enquanto ônibus de todas as cores, com seus motoristas agitados pisando em freios barulhentos, espalham ruídos de motor e fumaça.

No centro da “capital” do país no exterior já não existe a tranqüilidade das décadas passadas. Não há mais casais de braços dados, senhores elegantes que observam. Hoje, há os que não páram, apenas acenam e soltam um “a gente se vê”; e também os que freqüentam bares que nem bancos possuem, fazer a refeição de pé poupa tempo; e ainda os que se arriscam em meio ao tumulto de carros, não podem aguardar o sinal.

O caminhar lento para apreciação da arquitetura, para a leitura de cartazes, ou mesmo o ato de sentar em uma praça e conversar foi atropelado pela pressa do dia-a-dia moderno.


Luciene Alves | comentários( 3 )


03/01/2007 11:48
365 dias

Em quase todo o mundo, os fogos de artifício anunciam a chegada de um novo ano. São pontos brilhantes que iluminam os olhares e enchem o coração de alegria. Nesse instante percebemos que é o momento de (re)fazer planos, buscar sonhos deixados de lado, romper amarras do que não se quer, dizer "eu te amo", reconsiderar os equívocos e perdas e retomar ou encontrar o caminho da felicidade.

Teremos outras 365 novas oportunidades de dizer à vida que de fato queremos ser pessoas melhores, pessoas felizes; queremos viver cada dia, hora e minuto em sua plenitude; queremos contar o que deve ser dito sem medo de ousar.

Teremos 365 chances de perdoar ou pedir desculpas; de respeitar e receber o mesmo de volta; de evitar ofender para não magoar; de esquecer o orgulho e voltar atrás.

Um novo ano nos dá a oportunidade de nascer, florescer, viver de novo! Porém, (re)viver uma vida na qual nossas mãos sejam portadoras de afagos, não de agressões, e nossos lábios profiram palavras de alívio, de força, de luz. Uma vida livre de conceitos e preconceitos; distante das discórdias e muito perto daqueles que gostam de nós.

Então, vou desejar... que 2007 seja um ano de amor, paz, saúde, conquistas; que sejamos mais gentis e solidários; que ao fim de mais 365 dias só tenhamos motivos para agradecer, com a certeza de que os grandes milagres da vida são o amor, a amizade, a esperança e a generosidade que estão dentro de cada um nós.


2007 beijos!!! 8-))


Luciene Alves | comentários( 2 )


24/09/2006 21:44
Adeus

Um desorientado viajante errou o destino e foi parar na velha estação de trem. Aproximou-se do balcão e pediu um bilhete para a cidade mais próxima. Em seguida, comprou um maço de cigarros, de onde tirou um e pôs-se a fumá-lo, andando de um lado a outro. Do alto-falante, saía uma música antiga, desconhecida, mas que revolvia sua mente, povoando-a de lembranças de todo tipo.

Alguns pombos desfilavam sob a marquise de ferro. Outros viajantes chegavam pouco a pouco à estação que se enchia de conversas cada vez mais ruidosas.

* * *

Uma voz anuncia o trem. Ao sentir o tremor, cabeças se voltam em direção à luz que já vêem ao longe. O viajante desorientado joga a guimba no chão, pisa com a ponta do pé direito até apagá-la e curva-se para apanhar sua pequena mala. Ergue-se lentamente e, em um instante, tudo desaparece. Resta apenas silêncio.

O viajante, desorientado, ficou só na estação. Triste, inundado com aquele sentimento de todas as despedidas.



Luciene Alves | comentários( 7 )



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Luciene Alves
Jornalista
Rio de Janeiro/RJ


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